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segunda-feira, 12 de abril de 2010

A “NOSSA” REPÚBLICA DOS BRUZUNDANGAS: Ficção e História na obra de Lima Barreto *


Lima Barreto foi um escritor comumente enquadrado no período pré-modernista devido ao caráter realista da sua escrita. Marcado pela presença constante da crítica e da ironia, Lima Barreto realiza, ao longo de várias das suas obras, uma denúncia ferrenha das mazelas da sociedade brasileira pós-republicana. Na verdade, a obra deste autor, é um reflexo da sua vida de provações e dificuldades, que se iniciam com a morte da mãe – ainda na infância – e se aprofundam com a demissão e loucura do pai, após a proclamação da República no Brasil.
Na visão de Nicolau Sevcenko, em Literatura como Missão, trata-se de um escritor mal compreendido e marginalizado tanto política como intelectualmente, apesar do êxito das suas obras; um intelectual consciente que entendia que algo deveria ser feito a serviço do povo brasileiro que vivia na miséria e na ignorância. É desse modo, um mestre da Literatura Militante.
Falar de Lima Barreto é traçar o perfil de um homem que lutou contra o preconceito racial e tentou – aos moldes da educação recebida do pai – tornar-se “doutor” para sentir-se aceito e reconhecido numa sociedade agraciada por títulos de riqueza e prestígio; é trazer a tona a voz do mulato do subúrbio que assistiu com entusiasmo a manifestação campal que seguiu à assinatura da Lei Áurea – que em sua mente infantil legitimaria a liberdade de todos – e com desgosto a proclamação de uma República pelos militares, principalmente em decorrência da superficialidade do 15 de Novembro e das transformações ocorridas na vida da família em decorrência das modificações na política vigente.
É este o sentimento que aparece na obra “Os Bruzundangas”. A estrutura da sociedade brasileira que se organizou no período pós-republicano se fundamentou, principalmente, nos arranjos e conchavos políticos entre grandes oligarquias, o que se convencionou denominar República dos Coronéis – título decorrente da criação da Guarda Nacional, ainda no Império. Uma ligação que levou Alfredo Bosi a afirmar que “nessa república que se desejava nova, quase tudo vinha como herança de cinqüenta anos de um Império bastante estável” (BOSI, 1997). Esta semelhança não se resumia à utilização de um título militar que denotava prestígio e poder, como também aos valores morais de uma sociedade que se pretendia original e democrática, mas se caracterizava como um regime de desequilíbrio de raça e classe. Por conta disse, Bosi exclama: “Ai dos desapadrinhados nesse imenso cabide de empregos que é a cidade do rio de janeiro de 1905!”. (BOSI, 1997)
A insatisfação pessoal de Lima Barreto se reflete em sua escrita. O foco é o espaço brasileiro carioca de fins do século XIX, aqui apresentado sob a bandeira de um país fictício e visitado pelo autor em uma das suas viagens: A República dos Estados Unidos da Bruzundanga. A República das Bruzundangas é um país tropical, governado por um Mandachuva. País este que foi colonizado pelos iberos e povoado por eles e por outros povos. Ao longo da sua história, foi colônia, império e tornou-se república a partir da ação de militares insatisfeitos e ex-senhores de escravos descontentes com a abolição. Bruzundanga é um substantivo feminino que pode significar “palavreado confuso, mistura de coisas imprestáveis, mixórdia, trapalhada, embrulhada” , o que deixa claro que, já na escolha do título o autor satiriza a sociedade que pretende denunciar ao longo da obra.
Concebendo a arte como uma força de libertação e ligação entre os homens, verifica-se nesta obra de Lima Barreto o anseio de revelar um retrato do presente por meio de uma visão crítica e combatente. Através de personagens que retratam o cotidiano, sua crítica se direciona, principalmente aos movimentos históricos, relações sociais e raciais (esta última de forma sutil quando se refere aos javaneses da Bruzundanga) e ideais políticos, econômicos e culturais da sociedade.
Partindo desse princípio, ataca o monopólio do poder político pelas oligarquias estaduais, especialmente a mineira e a paulista; a exploração do trabalhador rural; o processo de urbanização do Rio de Janeiro, então capital da República, a falta de compromisso político da literatura oficial, a valorização dos padrões estéticos e culturais europeus, o incentivo à imigração em detrimento da valorização do trabalhador local, o clientelismo político, a manipulação de votos, as fraudes eleitorais e o nepotismo, a economia monocultora e a política de valorização do café, a “construção” de heróis e os privilégios sociais àqueles considerados nobres.
Ao longo dos vinte e dois capítulos da obra e um complemento intitulado Outras Histórias dos Bruzundangas, Lima Barreto rompe com a literatura descomprometida. Segundo Lima, “quanto mais incompreensível é ela, mais admirado é o escritor que a escreve por todos que não lhe entenderam o escrito”. Criticando esta tendência, afirma: “A glória das letras só as tem quem a elas se dedica inteiramente; nelas, como no amor, só é amado quem se esquece de si inteiramente e se entrega com fé cega”. Seguindo este pressuposto, apropria-se da ironia e da caricatura para retratar uma realidade que, segundo ele, precisa ser exagerada para revelar os defeitos e as deformações que despertem desprezo geral. Desse modo, sua obra assume a feição de um romance histórico, na medida em que utilizando a literatura com enfoque jornalístico, como uma arma de combate sócio-político, o discurso de Lima Barreto se apropria da História e esta, se envolve em sua narrativa.

* Artigo produzido por Aline Najara da Silva Gonçalves. Professora de História e mestradna em Estudo de Linguagens (UNEB - Universidade do Estado da Bahia)


Referências Bibliográficas:
BARBOSA, Francisco de Assis. A vida de Lima Barreto. 9 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.
BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. 3ª edição. 9ª impressão. São Paulo: Ática, 2005.
______________. Um sonho do futuro: diários, cartas, entrevistas e confissões dispersas. Rio de Janeiro: Graphia Editorial, 1993. (Série Revisões;5).
CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas – O Imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
CARDOSO, Fernando Henrique (et al). O Brasil Republicano – Estrutura de poder e Economia (1889-1930). Vol. 1. 6 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.
GOMES, Flávio. Negros e Política (1888-1937). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. (Descobrindo o Brasil)
PINHEIRO, Paulo Sérgio (et. al) O Brasil Republicano – Sociedade e Instituições (1889-1930). Vol.2. 5 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 1997.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão: Tensões Sociais e Criação Cultural na Primeira República. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

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